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: O porquinho selvagem :
Na época em que criava porquinhos-da-índia na ilha de meu sítio, minha fama de amante dos animais percorria a redondeza. Eu era a louca que, nos fins-de-semana, quer fizesse frio, calor ou chuva, pegava o caiaque e remava para a ilha e lá ficava, sem fazer nada além de permanecer sentada observando atentamente os incríveis bichos.
Assim, quando aconteceu de um homem da região ter sua plantação de aveia atacada por preás (espécie de porquinhos selvagens), logo fui lembrada, e ao invés de matar os animais, ele se empenhou em pegá-los em armadilhas para que eu tomasse conta deles.
O cara conseguiu, e um dia, quando cheguei ao sítio havia um animalzinho cinzento, magro e assustado, esperando por mim numa pequena gaiola para pássaros. De cara simpatizei com ele, mas quando fui encostar no bicho disseram-me, com um tom de gozação, que aquele não era um de meus queridos porquinhos, e sim um animal selvagem e feroz, que me morderia se tivesse a oportunidade. Não dei muita bola, mas fiz que acreditei e, por hora, deixei o animal de lado.
Mais tarde, quando todos haviam saído, resolvi tirar o porquinho da gaiola e transferi-lo para uma caixa mais confortável para a viagem
até a minha casa. O bicho estava assustado e se encolheu num canto da gaiola, mas quando o peguei, com toda a calma e delicadeza de
que era capaz, ele não me mordeu e não fugiu. No meu colo, tentava se enfiar embaixo de meus braços, para se esconder. Com pena,
coloquei-o na caixa e levei-o para casa.
A minha intenção era apresentá-lo aos meus porquinhos domésticos que viviam soltos no pátio.
No entanto ele não deu muita bola para eles e foi direto se esconder atrás de um vaso. Fui pegá-lo novamente e só aí me dei conta de
que um animal selvagem será sempre diferente. O arisco bicho corria como nunca vi um porquinho correr na vida, e dava saltos incríveis
para subir nos vasos e canteiros do pátio: chegou a pular mais de 60cm de altura!!!! Depois de muita correria, consegui pegar o animal e
tranqüilizei-o no meu colo. Ao acariciá-lo percebi que estava muito magro e completamente tomado de piolhos. Não é fácil a vida de um
animal silvestre! Também descobri que era um macho, e chamei-o de Urtigão, em vista de seu comportamento arredio.
Dei-lhe um banho com xampu anti-parasitas e soltei-o de novo no pátio. Mas sabia que ali não era lugar para ele e decidi que o levaria para a ilha no próximo fim-de-semana, onde poderia viver num ambiente mais natural e parecido com o de onde veio. Não haveria pessoas indo e vindo toda a hora, teria a companhia de meus doze porquinhos domésticos e estaria a salvo dos cães e caçadores da região.
Dessa forma, sábado eu já remava o caiaque carregando Urtigão, já bem mais calmo e acostumado comigo. Soltei-o na ilha e pude notar sua felicidade por estar livre. Ele então correu, deu uma volta completa no lugar, e, ao perceber que não havia saída por terra, atirou-se na água sem titubear e começou a nadar em direção à margem. Surpresa e apavorada, gritei para que meu pai, que estava do outro lado, corresse para a margem e socorresse Urtigão.
Pensava que ele não alcançaria a terra firme, pois para isso seria necessário nadar cerca de 30m, mas ele nadava rápido e
confiante, e antes que meu pai chegasse até lá, ele já havia alcançado a margem e desaparecido no campo. E nunca mais foi visto.
Triste e ao mesmo tempo admirada, apenas desejei que ele conseguisse sobreviver sozinho, tarefa difícil para qualquer preá, que são animais incrivelmente sociáveis e necessitam de uns aos outros para estarem seguros num mundo cheio de perigos e predadores. Mas pelo menos aprendi uma lição: um animal selvagem sempre será selvagem, e por mais parecido que possa ser, é completamente diferente de um animal doméstico e portanto não pode ser tratado como tal.
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